Viver em sociedade faz bem?????
A saúde não depende apenas de alimentação, atividade física, sono ou acompanhamento médico. O ser humano também precisa de convivência, afeto, amizade, pertencimento e contato com outras pessoas.
Família, amigos, colegas de trabalho, vizinhos e grupos comunitários podem fazer parte de uma rede que ajuda a pessoa a enfrentar momentos difíceis, compartilhar experiências e encontrar apoio. A ciência tem mostrado que relações sociais de qualidade estão associadas a melhor saúde mental, maior bem-estar e, em diferentes estudos, menor risco de adoecimento e mortalidade.
A pandemia de COVID-19 deixou essa questão ainda mais evidente. O isolamento e a redução do contato presencial mostraram como a convivência faz parte das necessidades humanas. Ao mesmo tempo, também aprendemos que não basta estar rodeado de pessoas: a qualidade das relações importa.
Abaixo enumeramos 08 fatores que podem contribuir para sua saúde através do convívio social:
1. Ter pessoas por perto também é cuidar da saúde
A convivência social pode funcionar como uma espécie de proteção ao longo da vida.
Ter alguém para conversar, pedir ajuda, compartilhar uma preocupação ou simplesmente passar algum tempo junto pode diminuir a sensação de isolamento e aumentar o sentimento de pertencimento.
Isso não significa que uma pessoa precise estar cercada de gente o tempo inteiro. Algumas pessoas preferem círculos sociais menores e períodos de solitude. O importante é existir uma rede de relações que ofereça conexão e significado.
Estudos sobre isolamento social e solidão mostram associação com diversos problemas de saúde, incluindo maior risco cardiovascular, pior saúde mental e maior mortalidade. [1,2]
Por isso, manter vínculos não deve ser considerado apenas uma questão emocional. É também uma dimensão importante da saúde.
2. A vida social pode proteger a saúde mental
Conversar, rir, compartilhar experiências e sentir-se ouvido podem ajudar a enfrentar períodos de estresse, tristeza e insegurança.
A convivência também pode facilitar a percepção de que determinada dificuldade não precisa ser enfrentada sozinho.
Amigos e familiares não substituem psicólogos, psiquiatras ou outros profissionais quando existe um problema de saúde mental. Entretanto, uma rede de apoio pode ser importante para perceber mudanças de comportamento, incentivar a busca por ajuda e acompanhar a pessoa durante o tratamento.
A ausência prolongada de contatos sociais, por outro lado, pode favorecer solidão e sofrimento emocional.
Por isso, cuidar da saúde mental também pode significar ligar para alguém, aceitar um convite, conversar com um amigo ou simplesmente estar presente.
3. Amigos e familiares também influenciam a saúde física
Pode parecer estranho falar de amizade quando o assunto é saúde física, mas os dois estão relacionados.
Pessoas inseridas em relações sociais positivas podem ter mais apoio para enfrentar doenças, manter tratamentos e adotar hábitos saudáveis.
Um amigo pode incentivar uma caminhada. Um familiar pode acompanhar uma consulta. Alguém próximo pode ajudar uma pessoa idosa a manter sua rotina ou perceber quando algo mudou.
Além disso, atividades realizadas em grupo podem facilitar a prática de exercícios e diminuir o sedentarismo.
Dessa forma, a convivência pode influenciar indiretamente comportamentos importantes para a saúde, como atividade física, alimentação, sono e procura por atendimento.
4. A pandemia mostrou o quanto a convivência é importante
Durante a pandemia de COVID-19, muitas pessoas passaram semanas ou meses com contato social reduzido.
Famílias ficaram separadas, encontros foram cancelados, escolas e espaços de convivência foram fechados e muitas pessoas passaram a trabalhar ou estudar de casa.
A necessidade do distanciamento físico foi importante para reduzir a transmissão do vírus, mas também trouxe consequências relacionadas ao isolamento, à solidão, ao estresse e à saúde mental.
Pesquisas realizadas durante a pandemia identificaram aumento de sintomas de ansiedade, depressão, estresse e solidão em diferentes grupos da população. [3,4]
Com a retomada da convivência presencial, ficou ainda mais evidente que encontros, abraços, conversas e atividades compartilhadas possuem um valor que nem sempre percebemos quando fazem parte da rotina.
5. Depois da pandemia, nossa forma de conviver mudou
A pandemia não simplesmente terminou e tudo voltou ao que era antes.
O uso das tecnologias aumentou, muitas relações passaram a acontecer pelas telas e o trabalho remoto tornou-se mais presente em várias atividades.
A tecnologia pode aproximar pessoas que estão longe e ajudar a manter vínculos. Uma videochamada, uma mensagem ou uma conversa por telefone podem ser muito importantes quando um encontro presencial não é possível.
Mas existe uma diferença entre estar conectado e sentir-se conectado.
Passar horas nas redes sociais não necessariamente produz o mesmo efeito de conversar pessoalmente, compartilhar uma atividade ou passar um momento significativo com alguém.
Por isso, a tecnologia pode ser uma ferramenta de aproximação, mas não precisa substituir completamente a convivência presencial.
6. O que aprendemos com o isolamento?
Uma das principais lições da pandemia foi perceber que a saúde é mais ampla do que a ausência de uma doença.
Aprendemos também que relações familiares, amizades, contato comunitário e apoio emocional podem fazer diferença em momentos de crise.
Outra lição importante foi reconhecer pessoas que muitas vezes passam despercebidas: idosos que vivem sozinhos, indivíduos com pouca rede de apoio, pessoas que moram sozinhas e aqueles que já enfrentavam problemas de saúde mental antes da pandemia.
A experiência também mostrou a importância de buscar equilíbrio entre tecnologia e convivência presencial.
Precisamos das ferramentas digitais, mas também precisamos de pessoas.
7. Conviver também pode alimentar a dimensão espiritual
A espiritualidade pode ter significados diferentes para cada pessoa. Para algumas, está relacionada à religião; para outras, envolve valores, propósito, esperança, natureza, solidariedade ou uma sensação de conexão com algo maior.
A convivência pode contribuir para essa dimensão quando proporciona acolhimento, sentido, solidariedade e participação em uma comunidade.
Grupos religiosos, projetos voluntários, atividades comunitárias e relações baseadas em valores compartilhados podem oferecer às pessoas um sentimento de pertencimento.
Isso não significa que a espiritualidade tenha o mesmo significado para todos. Ela deve ser entendida de acordo com as crenças e escolhas de cada pessoa.
O ponto central é que ter propósito e sentir-se parte de algo pode contribuir para o bem-estar emocional e social.
8. Uma vida social saudável não significa estar sempre acompanhado
Ter uma vida social ativa não significa participar de todos os eventos, ter muitos amigos ou estar rodeado de pessoas o tempo inteiro.
Uma pessoa pode ter poucos amigos e, ainda assim, possuir relações profundas e significativas.
O mais importante é buscar equilíbrio entre momentos de convivência e momentos de privacidade.
Conversar com a família, encontrar amigos, participar de atividades de grupo, visitar alguém, praticar um esporte, fazer um passeio ou simplesmente sentar para tomar um café com outra pessoa são pequenas atitudes que podem fortalecer os vínculos.
A saúde social não depende de quantidade.
Depende da qualidade das conexões que construímos e mantemos ao longo da vida.
Cuidar das relações também é cuidar de si
A vida moderna pode facilmente fazer com que as pessoas priorizem trabalho, compromissos e tecnologia e deixem a convivência para depois.
Mas as relações precisam de tempo.
Mandar uma mensagem para alguém que está distante, visitar um familiar, convidar um amigo para caminhar, participar de uma atividade comunitária ou simplesmente perguntar “como você está?” podem parecer atitudes pequenas, mas ajudam a manter os vínculos vivos.
Depois de tudo o que vivemos durante a pandemia, talvez uma das maiores lições seja justamente esta: saúde também é ter com quem contar, ter por quem viver e ter momentos para compartilhar.
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Referências
1. HOLT-LUNSTAD, J.; SMITH, T. B.; LAYTON, J. B. Social relationships and mortality risk: a meta-analytic review. PLoS Medicine, v. 7, n. 7, 2010.
2. NATIONAL ACADEMIES OF SCIENCES, ENGINEERING, AND MEDICINE. Social Isolation and Loneliness in Older Adults: Opportunities for the Health Care System. Washington, DC: National Academies Press, 2020.
3. SANTOMAURO, D. F. et al. Global prevalence and mental health burden of anxiety and depressive disorders associated with the COVID-19 pandemic. The Lancet, v. 398, p. 1700-1712, 2021.
4. XIONG, J. et al. Impact of COVID-19 pandemic on mental health in the general population: a systematic review. Journal of Affective Disorders, v. 277, p. 55-64, 2020.
5. WORLD HEALTH ORGANIZATION. World mental health report: transforming mental health for all. Geneva: World Health Organization, 2022.
6. WORLD HEALTH ORGANIZATION. WHO guidelines on physical activity and sedentary behaviour. Geneva: World Health Organization, 2020.
7. U.S. SURGEON GENERAL. Our Epidemic of Loneliness and Isolation: The U.S. Surgeon General's Advisory on the Healing Effects of Social Connection and Community. Washington, DC, 2023.
8. WORLD HEALTH ORGANIZATION. Social connection. Geneva: World Health Organization.
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